Em uma ecologia de pertencimentos, corpos e corpas assumem protagonismos para o debate sobre questões identitárias de gênero, raça e etnia. Encarnados nos próprios artistas ou tomados emprestados de outrem, esses 'seres' estão reunidos para expressarem desejos, lutas, ideais, rupturas, mitologias de origem, ativando crenças subjetivas, nas quais sentimentos de pertença se constroem de formas mais dinâmicas e substancialmente democráticas.

 

O conjunto de obras reunidas nesse recorte sugere possibilidades de identidades transitórias que ressignificam as ideias de raça, de gênero e etnia, muito além dos determinantes de normatização social, a partir da tessitura de uma política da diferença. 

 

Nessa perspectiva, é possível pensar uma humanidade livre da ideia de raça, de gênero e de etnia, em uma utopia pós-racial, pós-gênero, pós-etnia na qual todos os Direitos Civis da humanidade fossem conquistados na sua plenitude? Tais questões, sem dúvida, ainda são desafiadas pelas particularidades dos contextos geopolíticos. 

 

Contudo a criatividade artística produz diversas ações informadas pelas polifonias das pessoas pretas, dos povos originários, das mulheres, das "travestys", das "bixas", das sapatões, das trans, de todos os seres complexos não binários. Pessoas que lutam afirmativamente por uma humanidade menos desigual.

CORPOS,

PERTENCIMENTOS

 

PAISAGENS, COSMOVISÕES

A partir da compreensão de Paisagem Cultural estabelecida pela UNESCO, em 1992, e pelo conceito filosófico do antropoceno, formulado por Paul Crutzen, Prêmio Nobel de Química de 1995, este núcleo articula ideias de perspectivas pós-coloniais através de cosmovisões e paisagens não-ocidentais - ou seja, concepções e visões de mundo que integram de forma holística a existência humana com a natureza, o material e o imaterial, um todo vivo e dinâmico.

 

No exercício deste sistema conceitual que estrutura o núcleo, identificamos visões que remetem às mesclas e entrelaçamentos do corpo humano com a paisagem. Tal operação produz poeticamente uma espécie de fábula visual compatível com formas de conhecimento, remetendo-nos às cosmogonias afro-indígenas.

 

Mundos sintéticos construídos por vetores e dispositivos tecnológicos revelam formas alteradas de consciência, como aquelas encontradas em estados de percepção sensível do transe ou da ingestão de chás e substâncias psicotrópicas. Aquilo que foge da percepção ocular, as lentes fotográficas ampliam mundos micrológicos imperceptíveis para nossa fruição-ficção.

 

Essas paisagens e cosmovisões evocam também saberes complexos, e muitas vezes partilhados em grupos através de ritos e vivências secretas. A partilha de tais imagens deslocadas de seus contextos originais, ressignificam as formas tradutórias do sagrado, ampliando possíveis recepções mediadas pelos processos artísticos.  

 

As sessões que fazem parte deste núcleo apresentam distintas cosmogonias, exaltam a captura do sublime do mundo natural, recorrem à criação de paisagens digitais, focam na ampliação de micro realidades, revelam fluidos do extrativismo, purificam e depuram com ervas o corpo e o espaço. Essas imagens geram uma produção poética que, em conjunto, confirmam um ativismo erigido sob experiências de vida e arte.

 

RISCOS,

SUBJETIVAÇÕES

Ao associarmos o ato de riscar com o processo de subjetivação, partimos do pressuposto de que esse ato de riscar é, em si, uma operação de invenção ou criação de novas possibilidades de existência, que pode originar as mais diversas interpretações do ser e estar no mundo, e por isso, subjetivas, reveladoras dos mais íntimos e singulares mundos. Destarte, nas paredes da galeria, esses conceitos operatórios se desdobram em um exercício contínuo de invenção.

 

Por sua vez, subjetivar articula processos criativos que instauram a linguagem do desenho no campo da própria experiência - valor existencial indispensável ao ato de pensar por imagens. Mas o desenhar se desloca da tradição: ao incorporar riscos, traços, cores em distintos suportes; ao tensionar os requisitos técnicos da linguagem; ou ao desvelar relações entre tradição e contemporaneidade. 

 

Mas, como ação intrínseca ao ser humano, riscar requer também habilidades técnicas (não canônicas), seja ao criar atrito sobre superfícies com uma ponta de grafite, ou com cerdas de um pincel, ou ainda com o manuseio de meios digitais. Originados por gestos mais contidos sobre superfícies analógicas ou tecnológicas, desenho, pintura, pixel e bordado demarcam e configuram corpos dos mais abstratos aos mais realistas – enquanto certos corpos atuam como o próprio objeto do riscar, desenhando nos enquadramentos movimentos e ritmos cadenciados para instaurar imagens de subjetividade. 

 

Entre linhas, curvas, superfícies e planos, o ato de riscar desenha e inscreve, impulsionando e revelando (re)memórias individuais e coletivas. São manifestações para além das questões formais de seres desejantes de conhecimento e de apropriações das perspectivas de quem está conectado consigo e com o mundo.

 

GRAVADORES

DE MEMÓRIAS

Gravar é o termo aqui empregado para pensarmos não só no seu sentido técnico ou tecnológico, mas também como um conceito que opera a imaginação, a memória. 

 

Pode parecer tautológico relacionar gravar com memória, mas no universo da arte nos permitimos digressões, visando à atualização de significados propostos por obras, objetos e ações, numa perspectiva do pensamento e da reflexão. Tanto as obras oriundas de processos gráficos, como de outras técnicas e linguagens, justapõem-se ou se entrecruzam como estímulos para lembrar ou prolongar lembranças do que vemos, sentimos, fazemos. Reproduzir ou imprimir tais lembranças são operacionalidades conceituais e técnicas, em que a imagem que nasce delas vem engendrada de ressonâncias e fricções. 

A temporalidade nas obras pode assumir o movimento cíclico do mundo e da vida; aparece como movimento intuído pela consciência, que é sua instauradora; e como possibilidade, probabilidade, sugere o vindouro, o devir, por isso metafísico - noção da relatividade pós-einsteiniana como possibilidade de várias ordens. Transmutado em formas geométricas; registrado em anotações de percurso; em representações do sagrado ou de cenas religiosas consagradas; em fusões de corpos humanos com plantas, cidade; na captura do fogo ardendo em brasas; e ainda de desafetos expressos em rede social, essas possibilidades traduzem os tempos que passam, atravessam e ressignificam, pela arte, as próprias memórias de quem os vive e dos que dele se alimentam. 

Por fim, no universo da arte, ideias consonantes e dissonantes se cruzam com as imagens que nascem da experiência sensível, envolvendo tanto a atitude de quem as recebe quanto de quem as produz, ou seja, tanto pela criação como pela apreciação, em um via dupla de permuta de olhares, sensações e energia que são indispensáveis para que essa experiência se torne aberta em devires.